sexta-feira, dezembro 24, 2010

A caixa de música

È véspera de Natal de 2010, o senhor Joaquim faxineiro da estação de trem Santo Amaro da movimentada cidade paulista, capital econômica do Brasil – São Paulo se preparava para o seu repetitivo e corriqueiro trabalho, varrer a estação e recolher o lixo abandonado pelos transeuntes da estação, quando ouviu um som inspirador. Estamos no começo do verão brasileiro, como sempre chuvoso e abafado, o ar seco do inverno fazia tempo que não estava no ar, e os sons da cidade que são mutáveis acompanham as mudanças atmosféricas, nunca são harmônicos, tão pouco inspiradores – no entanto naquele vinte e quatro de dezembro o som agradável, transformou a manhã de verão chuvoso do Joaquim em uma manhã de primavera, como uma pintura de Monet parada na eterna placidez do frescor agradável de não ver o tempo passar. Na ânsia curiosidade, levou seu flap-flap dos pêlos da vassoura raspando o chão na buscar da origem do som que não se comparava ao forró pé de serra que admirava, foi em sua nada disfarçada busca que deparou-se com uma moça sentada no último degrau da passagem dos usuários do trem. No seu colo, estava uma caixa de música de plástico cor vermelha e amarela neon. - “Óia” moça, que “belezura” essa tua caixinha de música! – disse o nordestino. – Ela parece até que foi feita por um dos anjos que protegem nossa senhora, “óia” que já vi música boa, mais essa é mesmo “arretada” de boa. Onde foi que tu acho? A jovem enxugou as lagrimas e encarou o sorriso largo de velho questionador. - Era para ser um presente grande para a minha mãe. Ela esta internada na Santa Casa, e eu prometi levar o melhor presente que eu achasse, economizei dois meses de salário. Sei que ela não vai gostar! Ela continuou sem recuperar o fôlego, abria e fechava a tampa da caixa de música nervosa, deixando ora o som sair, ora ser tragado pelo abafo da tampa amarela: - Sai de casa para Santo Amaro, tirei o dinheiro do banco. Ai uma senhora estava desesperada na porta do banco porque a pensão dela não havia caído na sua conta e tinha de comprar o remédio para pressão. Fui com ela e comprei o remédio. Cheguei no Largo Treze de Maio, estava praticamente com os pés dentro de uma loja, quando uma mulher com um bebe no colo me pediu com os olhos cheios de lagrimas um dinheiro para comprar leite e comer. Minha mãe sempre me disse para tomar cuidado com estes pedintes, eles geralmente nos driblam a piedade, mas me deixei levar pelo tal do espírito natalino, mesmo ele, hoje, ser uma moeda corrente e não um sentimento tolamente romântico como o meu. A levei até o supermercado Barateiro, e comprei uma caixa de leite junto com uma cesta básica. Sabia que o dinheiro estava acabando, tinha consciência disto, mas acreditei que nas barraquinhas encontraria algo bom e grande. A fome começou a sufocar meu estomago, minha cabeça doía e então resolvi comer um churrasco grego. Resolvi ir para o hospital e não levar nada. Daria depois do ano novo, depois do próximo pagamento, foi então que passei por uma barraquinha e vi esta caixinha com uma música “ting-ling” sem graça e algo me convenceu a levar, ter pelo ao menos alguma coisa e não chegar com as mãos abanando. - Mais moça – disse o velho ainda com o sorriso – você não percebeu o que te aconteceu? ... Você acredita em milagres? - Mais ou menos. - O som dessa caixinha, eu te dou “muitcha” certeza de que é um dos instrumentos usados no céu para a chagada de Nossa Senhora diante de Deus. Sabe por quê? O faxineiro aguardou uma resposta, mas obteve apenas um aceno de cabeça e um sobe e desce de sobrancelha incrédula: - Quando tu cumpro o remédio pra senhora, ela rezo a virgem que tudo de bom te acontecesse. A mãe com o menino pediu à padroeira que já foi mãe como ela que a abençoasse e a livrasse da dor de não poder dar aquém tu ama aquilo que esse alguém deseja. Tá tendendu”? A maior mãe do céu, pediu a um dos seus anjos pra se passar por “japa” e te vender uma caixa com uma das músicas que ela mais gosta e tu presentear a sua mãe. A moça o olhou incrédula, e pronta para partir no trem que chegava a estação. Mas o velho a desafiou: - “Qué” vê? Abra a caixa e só “ouva” a música que se sai dela. Assim ela fez. Elis nada ouviu dos carros, das pessoas falando, dos escapamentos explodindo, da água da chuva que caia nas telhas de aço da estação, não ouviu a sirene que passou a toda velocidade, também não ouviu o ensurdecedor som das motos costurando os carros em alta velocidade, não ouviu a britadeira que abria o chão com sua fúria, apenas uma música que a levava a outro local, um lugar calmo que existe dentro dela. Elis não queria abrir os olhos, estava envolvida pelo som, como o pico de uma montanha envolvida pela névoa, como um peixe envolvido na eternidade pela água; era como voar, Elis voava dentro de si, sentindo uma paz, o mundo ao redor não existia. Apenas ela e a caixa de música. Uma bolsa bateu em seu ombro e ela abriu os olhos: - Desculpa moça. Disse a inocente agressora. Cadê o faxineiro? Ele não estava lá. Todos entraram nos vagões. O som da cidade estava no ar e só, de pé, na estação Santo Amaro estava Elis, com a caixa de música nas mãos.

2 comentários:

  1. Nos detalhes, nas sutilezas, no cotidiano, eh que desprendemos o nosso melhor. Belo texto.

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  2. Queridoo!

    Li sua história de Natal.. e me sinto muito privilegiada por ter usado meu nome na história de Natal.. em alguns aspectos a personagem parece mesmo comigo! adoreii mesmo até pq eu amoo o Natal e todo a sua mágica rs! obrigada mesmo! desculpe só ter comentado hj... mais ó já tinha lido viu?
    Beijãoo e um ótimo 2011 para vc!

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