quarta-feira, janeiro 26, 2011

O direito do semáforo

Com vocês a terceira palavra: Remela. Proposta por Kátia. O direito do semáforo
Oito da manhã acorda o Senhor Rodrigo, advogado e grande conhecedor das leis; o café já esta na mesa e sentados os filhos. Retrato idealizado do que tem de ser uma família padrão e correta aos olhos vigilantes da sociedade. Nada foge ao seu convencional, apenas a pressa pelo despertar atrasado e a não vontade de levantar da cama mesmo com os gritos da loira, turbinada e fiel esposa. Vestir-se é obrigação, comer facultativo, cumprimentar a família antes de sair, ato ignorado, e que não necessita de perdão no jantar das dezenove horas. As cinco da manhã o pequeno Beto já estava de pé, as seis sem tomar o café estava na linha vermelha, saindo da zona leste rumo ao cartão postal da NewYork tupiniquim – São Paulo. Avenida paulista era o endereço do seu trabalho. Lá não é preciso possuir o ensino médio, tão pouco se precisa saber ler e ter dezoito anos. È necessário sorte. Muita sorte. Sorte para que alguém pare seu carro e aceite comprar suas balas. Mais sorte para que não seja agredido e uma dose de esperteza para fugir da tentação e de verdade fugir da realidade. Deixar-se envolver por uma entorpecente droga que o faça sonhar com o que não tem. Mas que na verdade estará o enganando, o levando a seguir a margem da sociedade, sem uma vara que o faça como agora equilibrar-se entre o não ter, mas sobreviver, e no final da tragada ser mais um por cento na contagem criminal da dura cidade. O Uno verde limão novo comprado a vista semana passada pelo Senhor Rodrigo esta a oitenta por hora, em um local onde o mínimo respeitável e aceitável pelas leis de transito é sessenta. Mas um cidadão convencional pode infligir algumas leis de vez em quando. Deixar de pagar alguns impostos, sonegar outros e é claro fazer uso de uma cultura que seja melhor que a sua. Afinal, como pensa Senhor Rodrigo ao dar o nó na gravata e ultrapassar o sinal vermelho, - todo o dinheiro que darei ao governo pagando impostos ira direto e sem parada no banco central para o bolso dos políticos, e o que a cultura brasileira tem de melhor para lhe oferecer do que o consumismo daquela outra? O que pode ser tudo verdade! Balas de bananas nas mãos de Beto. Oito e quarenta e cinco no Rolex de Rodrigo. O semáforo dá sinal de que o homem apressado pare e freie sua pressa, relaxe no banco de couro de seu automóvel e termine de arrumar-se. Mas para o menino o sinal e um capataz, com chicote na mão e olhos vermelhos de fúria, que á cada pequenas pausas o impulsiona mesmo no sol escaldante a continuar a labuta. Sem vontade levanta da calçada e é capaz de ouvir a voz da domestica e evangélica mãe lhe recitar um versículo da bíblia: “O trabalho edifica o homem.” O que é edificar? Sempre se pergunta o menino ao ouvir tal palavra sem sentido para ele, e talvez até para a mãe. O vidro de Rodrigo esta aberto. Beto aproxima-se. Seus olhos são suplicas para que o homem lhe conceda uma misera atenção e talvez faça negócio com ele. E o produto com certeza será deixado no porta-luvas do carro e comido posteriormente pela filha mais gorda que precisa ir ao medico para emagrecer de tanto que come. Ele pode dar-lhe um real pelas balas, tem poder para isso. Real, centavos, moeda que aprendeu a contar e conhecer pelo sufoco do desespero, única instrução que a fome permitiu ser fixada no cérebro do menino. Senhor Rodrigo olha para ele como um sem direito a moradia, sem direito ao auxilio do governo, sem direito a uma mísera e parca parcela dos impostos pagos pelo topo da cadeia social brasileira, um verdadeiro inseto que invade sua retina o importunando: - Moço compra uma bala para ajudar? Beto coloca sua humildade á negociação. - Não, e desencosta do meu carro favelado. Rodrigo rebate como juiz dando sentença de morte. - Posso ser favelado moço, mas minha mãe me ensinou a lavar a cara antes de sair de casa. Beto retruca com a moral do mocinho do conto, e eleva o sangue de Rodrigo a mesma temperatura do sol que derrete o asfalto. - Sai daqui se eu chamo a policia. Dá a replica Rodrigo mostrando seu poder de quem tem mais direitos na sociedade desigual. - Vai tirar essa remela do olho, seu rico imundo! Beto bate-lhe na cara sem ao menos tocar-lhe um dedo. Rodrigo volta-se para o espelho e sai cantando pinel ao liberar do semáforo.

3 comentários:

  1. Muito bom, sua linguagem é direta, sem torneios. Lembrou-me Górki. Parabéns, meu caro. E cuidado com os bons chefes de família.rs. E viva os paulistas !!!!!! Namasté.

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  2. Caro Robson, de fato "Não tem melhor lugar que Sampa!"... e suas histórias para que a gente possa contá-las. Parabéns. Continue contando. Abraços

    Dirceu

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  3. Robson, tem um rapaz que fica na esquina da rua que dá acesso à Avenida dos Bandeirantes, para quem vem do corredor Norte-Sul que me lembrou esse garoto.
    Como vou à praia sempre, ali é trecho obrigatório meu. Acabo meio que "sabendo quem são" os vendedores do local.
    E lá tem um rapaz que deve ter uns 15 anos e quase dois metros de altura. Ele vende frutas. Uma vez eu comprei limões deles para fazer uma limonada na praia! O rapaz sempre brinca com meu cachorro (que late pra ele sempre). Já soube que o rapaz paga os estudos com o que ganha. E como eu soube? Por conversar com ele. Agora, eu imagino se aquele rapaz que está ali trabalhando horrores já não sofreu na falta de educação de motoristas que se acham acima de tudo e todos? A mim ele trata bem e é super bem articulado. E a condição de vida deve ter também ensinado boas lições pra ele. Como "bater na cara sem tocar um dedo".

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