quarta-feira, janeiro 19, 2011

Traque.

Com vocês a segunda palavra: PEIDO. Proposta pela Chayane Traque.
Dos encontros de domingo ficaram apenas as recordações da passada infância; em plena atividade dos dezesseis anos Gabriel guardava na nostálgica caixa cerebral os sons dos sambas de família. Hoje ao redor do barraco de madeira onde mora com a mãe separada, no bairro Jardim Ângela, ouve-se com frequência apenas o “pancadão” do funk. Esta onda destruidora do que um dia pleiteou o samba como a voz poética do povo, lavando com sua vulgaridade como a água fétida do Tiete que lava a marginal em dia de chuva, é a titulo da mídia, a nova voz da periferia. Mas naquela noite solitária o burburinho da favela era outro, uma alegria antiga invadia a janela arrastando o adolescente a uma época recém passada, porem o pesar das mazelas atuais o fazia sentir que a doce época ha milênios já era distante. Os sons das novas crianças eram de sorrisos, as conversas eram de festividade sem necessidade. Pegou-se sorrindo sobre o nó da garganta abaixo do queixo e cantou junto. Quero ver quem vai fica-ar nesta roda sem sambar Quero ver quem vai fica-ar nesta roda sem sambar Quero ver quem vai fica-ar nesta roda sem sambar Fundo de quintal Berço de terreiro de bamba Vamos que o pagode é o samba he laia-laia Fundo de quintal Na palma da mão abre a roda Já faz tempo agora que é moda he laia-laia. Fundo de quin... O tempo parou. Ninguém sorria, nenhuma criança gritava, o som estancou no inicio da musica. Um estrondo se ouviu. Pá... Pá... Pá... Pá... Era o tiroteio invadindo a vida de Gabriel, tirando-o da nostalgia regressa do passado e o jogando no turbilhão da sua realidade. Para onde fugir? Que lugar se esconder? As madeiras do casebre eram como finas folhas de papel jornal, prontas a romper pela invasão da bala que não era a distribuída em festa de Cosme e Damião. Cogitou chamar a policia, gritar por socorro, mas era a própria policia retribuindo o não pagamento de propina, a lei cobrando sua participação no sujo tráfico da vida subterrânea na favela. Era a verdadeira São Paulo pulsando debaixo da camiseta do menino pobre, sem expectativa de vida e sem os muros protetores dos condôminos luxuosamente residências daqueles que a tudo assistiam pela TV. Faltou força ou energia diante do perigo, os músculos se contraíram na involuntária reação química do corpo, e o psicológico regressou a frágil infância no reflexo do medo. Debaixo da cama. Um menino debaixo da cama, encolhido feito feto, indefeso feito inseto, esmagado por aquilo que não entendia e suprimido pela realidade que não queria. O pá-pá-pá parou. Os ouvidos de animal atendo ao menor movimento do inimigo lá fora, a tensão passou o ato de sair debaixo da cama tornou-se vergonhoso para a masculinidade já presente. Mas o corpo não parou de reagir a convulsão causada pelo susto, e dos fundilhos da calça ecoou o som do alivio límpido, longo em forma de pum, esvaziando o interior do jovem Gabriel, retirando dele aquilo que não prestava. ...tal Berço de terreiro de bamba Vamos que o pagode é o samba he laia-laia. Regressou o som.

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