segunda-feira, fevereiro 07, 2011

As três barraqueiras do coletivo - Clínicas

Para vocês a palavra de número seis: Catarro - Proposta por Amábile. As três barraqueiras do coletivo - Clínicas
Eram Maria Fantoche, Maria Marionete e Maria Boneca de pano; três personagens no enorme teatro de bonecos que é a sociedade em mutação e crescente na maior cidade brasileira - São Paulo. Não eram somente provedoras dos risos da burguesia que se lambuzavam de baba por não conter a gargalhada em frente à TV, que ensandecidamente expõe e ridiculariza o dia-a-dia da periferia e faz uso dos sonhos de muitos inocentes para vender programas de entretenimento. Tão pouco apenas eram aqueles votos para promover a eleição do político que deseja uma ascensão na câmara de deputados e muitas das vezes no senado. Não, estas não se rendiam tão fácil. O ônibus Santo Eduardo que sai das Clínicas com destino ao bairro que vai a seu letreiro, pára em frente a praça Benedito Calixto. Sobem as Marias contagiando o ônibus com suas gargalhadas, suas risadas fortes e o bom humor inconfundível. No bairro onde moram as três enfermeiras, que lá todos lutam por uma melhor sobrevivência são populares por suas envolventes conversas no coletivo: - Amoroso, larga esse pé no acelerador que hoje eu quero chegar mais cedo em casa, hein! Disse Fantoche ao motorista que apenas retribuiu com um sorriso maroto. Depois de sentadas e acomodadas partiram para o bate-papo, claro que não possuíam o conforto de seus sofás comprados nas “Casas Bahia”, “Magazine Luiza” ou “Ponto Frio”, mesmo assim faziam daquele momento a terapia particular. Começaram falando sobre suas impressões da nova telenovela, tudo com muita descontração e sem importar-se de falar aos berros e brados para que suas opiniões fossem compartilhadas com todos os outros passageiros, alguns dormindo, outros lendo, uns que apenas olhavam pela janela do coletivo e perdia-se em seus sonhos alimentados pelas luzes da cidade: - Não menina, minha mãe dizia que novela antes era para mostrar a vida do pobre, mais agora você só vê a vida do rico passando nas novelas. Será que eles pensam que pobre não vivi, só rico? - Pior que é né Maria! E ainda os pobres que tem na novela são sempre o povo mau caráter querendo roubar a grana dos ricos, é enfermeira matando gente, mordomo roubando as casas ricas, e os coitadinhos, pobrezinhos dos ricaços só se estrepando com os pobres sem vergonha. Passa um casal de homossexuais na Av. Rebouças a caminho de uma balada Gay, Marionete fica de pé e grita a todos os pulmões pela janela: - Larga... Menino vai namorar uma “muié”! Todas riem descontroladas com a atitude de Marionete e com o susto tomado pelos rapazes apaixonados. As Marias beiravam os cinquenta anos, mas traziam em si uma jovialidade que o tempo, cruel e implacável não conseguiu retirar delas. Ridicularizavam os carros da ultima moda que passavam por suas janelas, riam dos transeuntes pelos bairros nobres por onde o coletivo as conduziam, não poupavam ninguém. Era a vingança das bonecas, riam-se com gosto, de espremer lagrimas nos olhos, de fazer dor no abdômen com a comicidade que elas mesmas produziam para amenizar seus sofrimentos de cada dia. Marionete iniciou uma trança em seus cabelos curtos. Como que se estivesse se vendo através de um espelho, e trançou-se com maestria, sem deixar o penteado torto ou disforme. Uma dança lenta da ninfa mais vaidosa que qualquer poeta poderia imaginar. Não se preocupava se não era magra, se seus seios não eram siliconados ou não mais durinhos como antes. Era linda ao seu modo, radiante ao seu tom. Terminou e aos berros as outras duas a louvaram pela beleza que ficou o penteado. Como uma Miss ao ganhar o concurso mundial levantou sua mão e abanou, até amoroso olhou pelo espelho com seu sorriso de gracejo. O ônibus parou, Fantoche puxou a todos os pulmões a mucosidade que possuía em seu peito, ergueu com ímpeto e mirou com os lábios firmes e bicudos como a mira de um revolver para um grupo de mulheres paradas em frente a uma casa noturna. Ela desejava matar, seus olhos brilhavam. Ela esperou amoroso dar o tranco de partida e atirou, com todas as forças, impulsionada pelos braços seguros na janela e a puxada para frente do tronco. O escarro voou como uma bala, caindo com a mira perfeita nos olhos de Dona Deisy, que estava maquiada perfumada e pronta para arrasar naquela noite: - Agora você aprende sua vaca cadela! O ônibus voltou a andar, os passageiros voltaram seus olhares para Fantoche e a mulher que grita de raiva na rua, tendo ainda a viscosidade verde grudada nos silícios postiços. A negra Maria justificou-se: - O que vocês estão olhando. Ela me despediu da casa dela por me acusar de ter roubado uma jóia. O que era uma mentira, porque foi o filho dela que é usuário de crack, aquele marginal rico quem pegou pra trocar por pedra. Contou com o apoio da maioria dos passageiros, e amoroso apenas sorriu pelo espelho em que visualizada as Marias, dando sua aprovação à vingança de Fantoche. Voltaram as gargalhadas desmedidas.

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