segunda-feira, fevereiro 07, 2011

A espera

Para vocês a última e sétima palavra: Frieira. Proposta por Daniele. A mãe na espera do filho. Um chamado silencioso da madrugada que reverbera no peito daquela que pariu. Andou da cozinha para o quarto, não havia mais cômodos, não havia mais espaço para tanta espera. Dentro da casa ecoava a angustia do chinelo arrastado, e dentro dela o desespero do filho não mais voltar. Sentada em frente do barraco a beira do córrego poluído, sugando o ar frio da madrugada buscava a tranquilidade das estrelas, únicas que não faziam distinção de classe social.

Desta vez iria falar com o filho, já possuía a certeza, ele estava usando drogas. Já o haviam visto pelo centro da cidade com outros usuários perdidos na imensidão dos cachimbos entorpecentes e sedutores da fuga. Desta vez ajudaria o filho, daria a segunda vida a ele, faria dele o homem que sempre imaginou que seria e que deveria já ser em seus dezessete anos. Traçou planos, formas de convencê-lo, pensou em religiões, em clinicas e se viu sem alternativa. Como pensar em clinica de reabilitação se com o salário mínimo que recebia não dava nem para terminar de construir a casa que sonhou com o falecido marido. As religiões ela sabia que para contar com a ajuda delas deveria doar-se de corpo, alma e bolso. Ir a grupos de apoio comunitário, sem cogitação, muita distancia e dificuldade em fazer o filho comparecer aos encontros sem sua presença.

A mãe não encontra formas de como ajudar o filho. Amarrá-lo? Acorrentá-lo a cama? Como no caso que viu em um destes programas policiais populistas na TV, mas o desfecho sabia que não seria bom, nem para ela, tão pouco para o filho amado. Como a desesperada mãe que tomou tal atitude seria presa, o filho iria para um abrigo de menores e seria mais um usuário em seu consumo diário debaixo dos olhos, e com o consentimento do sistema político do estado de São Paulo.

O filho chegou. Tentou entrar na ponta do pé, sem fazer barulho, sem acordar a santa mãe. No escuro, vendo o ser que entrava em sua casa não acreditou que fosse o bebe que pariu. Era outro ser, e a fúria tomou conta de seu corpo. Queria levantar e dar-lhe a surra que merecia, queria que ele olhasse o mundo com os olhos da experiência que ela tinha. Acendeu a luz:

- Oi mãe! Respondeu de susto.

A voz do filho, instrumento que ela ajudou a produzir.

A ira partiu para longe dela, e voltou a mãe que acalenta, aquela que entende que é difícil o viver, que é surreal a desigualdade escancarada. Surgiu a mãe que cuida, aquela que protege mesmo sabendo que o filho esta errado:

- Tá com fome?

Pronunciou a pergunta com a maior suavidade e cautela, como se desejasse domar a fera mais feroz que poderia ver e que estava parada diante de si. Estendeu os braços e colheu em afago gostoso o abraço do filho amado. Acariciando os cabelos que não possuíam mais o cheiro doce de quando saiu de casa há três dias, perguntou novamente:

- Quer que a mãe te ajude em alguma coisa?

Os se olhos cruzaram, ela espera as lagrimas, suplica para a fuga do que o estava sugando, o matando aos poucos. Ela esperava que ele pedisse para ajudá-lo a se esconder do vicio, que o mostrasse o caminho reto, o caminho da vida digna e pobre, mas sem as sujeiras que a sociedade deixava por suas margens:

- Eu to com frieira, a senhora tem remédio aí!

A noite se tornou mais silenciosa, e um “sim”. Apenas um sim foi a resposta. O olhar perdeu-se dentro do rosto do filho e só enxergou o menino, a pequena, inocente e frágil criança.

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