quarta-feira, fevereiro 16, 2011

O colecionador de “NÃO”.

Pessoas; entrego aos prazeres ou não de sua leitura, o meu colecionador. Trarei esta semana ainda um trecho do que estou escrevendo, saibam que são muitas noites sem sono e imensas leituras em coletivos, observando degustando meus personagens pelas ruas de Sampa. Este medíocre escritor é assim, assim que eu sou! Abraços.
Débora Galleta era uma senhora que perturbadoramente aproximava-se dos sessenta anos. Sua vida de artista no passado rendeu frutos gloriosos que vão das cifras á fama na orla artística brasileira. Mas, após a ação implacável do tempo sobre sua pele recolheu-se á humilde, porém milionária mansão no morro da Urca, e destinou-se a curtir sua busca por novos artistas, atrás de sua proteção. Senhora Galleta muitas das vezes sentia-se só em sua mansão, mesmo cercada por seus empregados. Quando este sentimento a dominava, mandava um deles à praia de Ipanema ou até mesmo viajar para São Paulo, precisamente na Av. Paulista, atrás destes jovens artistas em busca de uma madrinha, alavanca para a fama, aquela que compreende seus sonhos de sobrevivência na desigual classe artística brasileira, onde aquele que tem menos talento e mais padrinhos e madrinhas esta em voga, e o artista que luta por sua arte a base de suor e sangue esta a margem e com fome. Todavia, Daniel Marencas não foi resgatado por um dos serviçais desta nobre ou convidado, inesperadamente pela senhora; Daniel chegou a casa subindo por uma íngreme e longa trilha que corta a parte traseira do morro da Urca e conduz aos domínios da rica artista, sendo Jongo, o jardineiro quem notificou da inesperada chegada do jovem, entregando um livro de fotografias e falando num português aportuguesado: “Estais a vir um homem!” Jongo desapareceu pelos corredores da imensa casa em direção ao jardim, Senhora Galleta colocou-se sorrateiramente em uma as janelas de seus aposentos que vislumbravam com suas enormes vidraças o recém-chegado. Era um jovem faminto vestido numa calça jeans e uma camisa xadrez, trazendo a tiracolo uma pequena mochila e uma maquina fotográfica pendurada no pescoço, tudo o que possuía. Parado no terraço que lhe apresentava a paisagem carioca o paulista sacou sua maquina e cumpriu seu ritual de costume, fotografar com o prazer de o primeiro olhar: “Moço!” Retornou Jongo, antigo bailarino que fora transformado e acorrentado a um penhasco como jardineiro, apontou com o queixo negro para a extremidade do terraço, disse: “Siga-me!” Daniel o seguiu e fotografou, até a entrada de uma suíte ao lado da grande casa. Por não sabia quanto tempo, encontrara um lar. Logo que foi deixado pelo jardineiro, observou as fotos tiradas e dormiu. O cansaço da caminhada fazia-o esquecer a fome e o medo do “NÂO”. Daniel beirava os trinta anos, foi descoberto por um vocalista de uma banda com sucesso há dez anos trás. Quando está banda de música pop lançou seu segundo e último cd, Marencas lançou seu livro com fotografias que clicou dos shows e bastidores, o mesmo livro que o apresentou a Senhora Galleta, seu único trabalho, causou inesperada sensação na classe artística pela sensibilidade das imagens, e por um tempo restrito o jovem teve seu sustento. Mas, inesperadamente tudo parecia estar contra Daniel, sua boa reputação de fotógrafo fora ao chão ao mesmo tempo em que a banda se desfez e desapareceu no esquecimento do populismo. Não conseguia se enquadrar nos editais governamentais de incentivo a cultura, sempre achou o “NÃO” como respostas para sua coleção de fotos que intitulava “cotidiano brasileiro”. Pela manhã, antes de Daniel acordar, a senhora tratou de dar telefonemas para descobrir informações sobre o seu visitante. De todas as amigas por onde Daniel passou para angariar ajuda, teve como resposta o “NÃO”, as editoras onde a Galleta tinha contato lhe renderam as mesmas respostas, e que as fotos do jovem eram boas, porém não era o que estava em voga no momento. Concluiu que a coletânea de retratos do jovem eram meramente retratos dos refúgios onde jovens artistas sem paradeiros se escondem quando são rejeitados pelo amargo gosto da arte sem valor. “NÃOS”, que por instantes quase comoveram a sessentona. Imaginou os caminhos que Daniel trilhou, desconsiderando, sua subida a pé do morro pela colina até chegar a ela, fotografando as ruas pichadas de São Paulo, os moradores de rua, as paisagens cariocas, os bares da nova boêmia. Não havia nada de extraordinário em Daniel Marencas, saiu de casa aos dezoito anos, abandonando os pais que jamais tiveram instrução e sonhos, os irmãos que desejavam apenas um lar e comida, e da passada da infância, trazia apenas o sonho de ser fotógrafo como Araquém Alcântara, deslumbrou-se em viagens para registrar os lugares mais lúgubres da terra. Porém, jamais passou do eixo Rio-São Paulo. Daniel acordou, quando chegou ao terraço, recebeu uma xícara de café sem açúcar, que não saciou sua fome, e um leve adeus, antes mesmo de dizer a que veio: “Daniel, suas fotos são boas, porém não posso lhe ajudar”. “Mas a senhora ainda não as viu”. Tentou um malabarismo facial para esconder a decepção, segurou as lagrimas na goela. “Elas não estão em voga”. Daniel regressou pela mesma trilha carregando sua coleção de fotos e “NÃOS”, que crescia mais e mais.

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