segunda-feira, fevereiro 21, 2011

O homem sanduíche.

Não. Aderbal não era deficiente de olfato ou qualquer outra irregularidade em sua biologia. Era sim mais um cidadão da desigualdade silenciosa e aceita, aquele que não sabe o porquê de trabalhar incessantemente e não ter o mínimo da subsistência para dar aos cinco filhos.

Tinha fé de que um dia tudo iria melhorar, mas este dia não chegava. Acontecia de mais um dia de trabalho chegar, ter de sair da periferia de São Paulo, a cidade das oportunidades, para a região central permanecendo por longas horas debaixo do sol e da chuva como o homem sanduíche, anunciando, gritando aos pobres desempregados que ele era o condutor dos sonhos, do emprego tão buscado, e o dia de seu sonho de encontrar um emprego melhor, esse sim tão esperado, idealizado, almejado, não chegava.

Podia ser dia de enchente que Deus manda, ou de sol escaldante que seque as roupas no varal por míseros minutos, lá estava Aderbal de pé, em frente ao teatro municipal como o homem sanduíche. Nada o faria deixar de cumprir com seu trabalho.

O dia arrasta-se com lentidão, o sol deste dia lhe torra os miolos, lhe causa o bronzeado que não queria, e sorrateiramente o câncer de pele que não sabia que tinha. Este era seu companheiro, aquele que lhe produz náuseas, cansaço estremo que fermenta as piores dores que o corpo humano poderia suportar. Adorado deus sol, de uma trégua, escondendo-se atrás das nuvens e deixe-me livre de seus efeitos que reverberam em meu corpo. Poderia dizer isso o velho senhor, mas não. Sujeitava ao sol, a necessidade do trabalho, a luta pela sobrevivência como um fiel cão de guarda.

O dia de trabalho chegou ao seu fim. Hora de lutar pela volta para casa, a chuva dá o ar da graça, erguendo o vapor do asfalto em processo de esfriamento, encharcando o homem e desaparecendo como surgiu, rindo daqueles como Aderbal que secavam ao vapor que elevava-se do chão.

Briga para entrar no ônibus, puxam de cá, apertam de lá, e pendurado na porta de entrada vai o pobre trabalhador com a costela sufocada pelo cabo do guarda chuva da mocinha que trabalha como uma condenada para o escritório de contabilidade, mas crê com fiel certeza ser melhor que o homem sanduíche que a todos os dias via parado em frente ao teatro. Corrida para o metro, o corpo seco, só a barra da calça representava e dava sinais de que em algum momento o homem suado este em contado com a água.

O corpo grudando pedindo banho, os órgãos genitais quentes tal quais os ovos cozidos que saciaram sua fome na hora do almoço, os dedos dos pés imersos em água pastosa. Foi acotovelado ao entrar no trem, a costela ainda doía, e com a cotovelada o estomago reverberou lembrado que não havia comida dentro dele.

Um rapaz. Emo. Frequentador da parte nobre da cidade tampa o nariz, espirra, irrita-se com o cheiro do homem sanduíche. Olha-o de cima á baixo, sem dó nem piedade e diz em alto e bom som para o companheiro do lado, também Emo, também sem se preocupar dos sentimentos do homem sanduíche:

- Ai que fedo, né Beeee?

- Tô loca com isso, um perfuminho Chanel cairia bem, nesse cheiro de cebola de sovaco me dá náuseas.

- Tá dura, bicha? Isso ai só uma Avon!

Convulsionando em gargalhadas saíram sem olhar para a cara do velho. Segurou as lagrimas e a raiva, fingiu que nada ouviu, mas no caminho da estação até o ponto para pegar outro ônibus até chegar em casa e estar com os seus, verteu as lagrimas mais densas que teve um dia. Não havia como fugir, o nó na garganta era gigante, a vergonha, gritava em sua fronte e a impotência o fazia ser fraco.

O homem sanduíche foi acolhido pela mulher com o beijo de sempre, pelos abraços dos filhos, e sem a queixa do mal cheiro. O cheiro do trabalhador, do lutador, o cheiro do homem sanduíche.

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