terça-feira, fevereiro 01, 2011

Rosa na sarjeta

Para vocês a quinta palavra: Pus. Proposta por Sarah. Rosa na sarjeta. Dona Josefa era viva ainda quando os filhos partiram para constituir suas famílias. Infinitas tardes ela gastou a olhar as fotos que retratavam um passado distante, onde os oito filhos homens eram ainda adolescentes sonhadores e as duas filhas, virgens donzelas a busca de um bom pretendente. A saudade é companheira da alegria e mãe da tristeza, esta era a divagação incerta na cabeça da velha idosa. O que deu de errado na criação dos filhos? Porque eles a abandonou? Para onde foram? Porque fogem do útero que os trouxe ao mundo? Respostas que ela jamais teria. Assim que o sol arreganhava-se nos primeiros raios da manhã pulava a senhora da cama e partia para a labuta doméstica e cuidar das rosas vermelhas de seu jardim. Não. Isso não era a realidade de Dona Josefa. Seria. Se ao contraio de uma retirante do interior de Minas Gerais que veio em busca de melhores condições de vida, naquela que para muitos era a terra dos sonhos, a realizadora de todos os ideais – São Paulo; fosse uma das damas da sociedade, que brilharam nos salões políticos na fase de ouro da cidade, mas não era! O marido conseguiu, sem esforço, trabalho como pedreiro, não recebia muito, não comprou com os anos de socar cimento a casa tão sonhada, mas ganhou do destino uma puxada em suas pernas, que o precipitou de cima de um andaime de cinco metros. Leitosa trapaça da vida e uma conspiração contra Josefa, o marido tornou-se invalido. Continuou a labuta como domestica e vendedora disso, vendedora daquilo. Sim, claro, como deixar de lado o eterno oficio das senhoras pobres da década de oitenta, ela também era costureira nas horas vagas. Os anos espancaram sua porta, e a vida não relutou em abrir-se para eles. Agora sim: Assim que o sol arreganhava-se nos primeiros raios da manhã, arrastava-se a senhora a caminho do hospital, ou do postinho mais próximo. Uma suplica constante por uma ajuda para os males da sua carne. Cinco da manhã, seis, nove, meio-dia, e ela ainda na espera. A perna envolvida em mais uma leitosa trapaça feita de pus, que a impedia de pensar em outro objetivo que não fosse à cura. Um médico envolveu de panos e a perna, outro lhe concedeu um remédio que não lhe traria melhora, este ultimo disse para ficar em repouso absoluto. Como se lhe pedisse em entrelinhas - deite-se em sua cama, ao lado de seu marido paraplégico, e aguarde a morte vir te recolher. Porem, Josefa queria mais, e partiu pela fé na busca da cura da carne através dos céus. Caminhar da periferia de São Paulo até o templo de Nossa Senhora Aparecida, este era o objetivo. Nada disse a ninguém, confiava em sua fé, e não se importava com o rastro deixado no caminho pelo pus. Ele estava lá tentando alertá-la que era o seu mensageiro particular do fim, seu hospedeiro e que não a abandonaria como fez as crias, que ficaria grudado nela até o último suspiro e seria o causador de sua rápida decomposição. Relutou em ouvi-lo, mesmo quando a viscosidade branca amarelada deixou de escorrer pela canela tracejando pelo calcanhar e pousar-se como uma poça no chão, e o sangue substituir seu lugar. O primeiro e único tombo de longe revelava que estava próxima do objetivo buscado. Todos foram unanimes em acreditar que foi um tombo fatal nos auto dos seus oitenta e cinco anos. Ninguém, nunca ninguém cogitou que onde foi achada, perto de sua casa, estava a caminho do templo da santa. Partiu Josefa no seio da sarjeta, como uma rosa abandonada por um namorado que deixou de amá-la, mas ainda intacta; envolta no sangue púrpuro que brilhava ao ser atingido pelos raios do sol e nas retinas atônitas da contemplação dos transeuntes, mas ainda sim uma rosa.

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