segunda-feira, março 21, 2011

Era ele e o verde

Segundo texto para Paixões Ordinárias.

Ele não era um “odiador”, mas a arquitetura barreira da luz, aquela fria onde nasceu, onde sabia caminhar, cheia de cimento, cal, azulejos, formas e retas duras em sua dureza de ser, que o oprimia. Sua forma têxtil, a língua normativa que tinha de ter, suas normas e padrões de como seguir, tudo isso também suprimia seu instinto. Não era estranho se encontrar melancólico, bucólico no prazer da carne com a carne. Sim, a reflexão do ato de estar ali, envolvido pelo sistema biológico, mas pulsante por algo que não sabia o que era. Apenas o desejo de já acabar, expelir o que tivesse de expelir, sentir o que já sabia o que sentiria, mas o novo, um novo corpo, nova sensação, isso não vinha, não tinha, não sabia o que era, mas queria!

Partiu, fugiu por estradas de piche que já conhecia, abandonando a velha que o possuía, rasgando sua existência de apenas existir. Nunca mais as duras avenidas, adeus ruas frias, jamais teria de vê-la sorridente entre dentes de tijolos iluminados pelas luzes artificiais que um dia se apagarão; na busca do natural, da alma limpa e límpida pela escuridão da noite, na iluminação do sol e na carne da terra, estava a caminho da virgem. Parou, andou e seguiu cego da cede do verde.

A negra noite o envolveu como envolve toda a luz. Os cri-cris encontraram seus ouvidos, seguidos de esguichos e ruminações do que não conhecia, e sugou forte o ar sentindo a água em terra penetrar em si, envolve-lo com o ardor do ar puro. Nada o tocava e tudo estava nele, tudo sentia, no entanto não achava pouso sobre a folhagem, apenas o medo o fazia seguir, sem traçar rumo certo, apenas dentro dela, de pé firmes seguiu abandonando as roupas, a têxtil pele que não era dele. Queria só ser, nas lagrimas duras de ser apenas ele, na cruza da carne cortada pelo arbusto, nos pés fincados pelos espinhos, nos cabelos molhados pelo orvalho, apenas ser. Era ele e a natureza vivendo só na “longidão” da velha cidade, o mato que dormia como cama era seu companheiro, era ele nu na folhagem materna em útero de acolhida.

O sol puxou-o pelos peitos, inflando seu corpo ao novo, trazendo ao ultimo dia. Não era Ninive, nem a branca de neve no bosque, mas apenas ele envolto por ela, verde em sua completude, magnânima do tudo que é o verde, onde o verde era o tudo para ele e o todo era verde. Aquele frio na barriga, aquela tremedeira nas pernas, o sacolejar cadenciado do corpo em rebolado compassado, mas sem outra carne, apenas ele e a mata, e cri-cris. Não precisava falar apenas sentir na pele o vento. Enxergá-la de baixo a riscar o céu com suas novas folhas. Não foi preciso o fingimento, as lagrimas correram por simples contemplação, a pele enrijeceu sem o toque feminino, e ele veio forte como tinha de ser, livre como era, branco como fora feito e novo como queria.

Não moveu um dedo para o orgasmo da alma do corpo, apenas abriu os braços, grande, bem grande e ao longe colhendo o enorme pinheiro que deitava sobre si, abrindo seu crânio, unindo carne a terra, juntando homem e natureza, verde e vermelho no ato do lenhador, que não gritara: Madeira!

2 comentários:

  1. É uma crônica-conto-relato-poema que nos faz viajar na fantasia e na realidade... Assim são os textos de Robson de Brito, recheados de metáforas e construções verbais bem costuradas.

    ResponderExcluir
  2. Tocante, sensual, profundo.
    A busca do prazer da alma, no toque das folhas, no cheiro da terra, no vento entre troncos.
    Até que se mistura à tal natureza para, dela, fazer(-se) parte.
    Para sempre.
    Como sempre deveria ser!

    ResponderExcluir

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...