domingo, março 13, 2011

O amante da biblioteca



















Não se sabe onde, nem quando pela primeira vez Noslida se encontrou dentro da biblioteca cheia de livros antigos empoeirados. Sabe-se que era o fim do verão. O sol iluminava pelas parcas frestas o acervo já caduco. Lá, no santuário das letras encontrou-se ele, no canto ao fundo arfando, empurrando aos sopros descompassados a poeira posta pelo tempo sobre os livros de gramática e linguística. O cheio era ocre, a iluminação âmbar, nada de claridade pungente como a dominadora luz solar, apenas uma penumbra para a localização dos livros. E ao fundo, atrás das prateleiras de português, onde nada se via, lugar onde a aranha sua teia tecia, era a escuridão total. Levemente encostado a prateleira ele, roçando as nádegas despiras nas capas duras, sentindo o cheiro do pó depositado nas folhas amareladas com a sucção da pele peniana na sutil lambida do prazer, entre pele e papel, embebendo-se na realização da antiga fantasia, ser tragado pelas letras.
Era um infrator, sabia disso. Sentia o medo pulsar em seu corpo febril e agitado. Alguém poderia chegar, poderiam vê-lo, e isso o impulsionava a continuar, a puxar para cima e para baixo cada vez mais os livros a esmo das prateiras e traduzindo na leitura os signos impregnados na folha: Nós amamos – Nós = pronome, ama = verbo amar, mos = desinência. Entendimento, sabedoria invadia seu corpo compulsivo do ato recriminatório na busca solitária, era a pura inundação de um mundo só dele, um rapaz transmutado em amante dos livros no termo literal da palavra.
Nomes... Nomes... Muitos nomes, Morcos Bango, Celso Cunha, Lindley Cintra, Martins Aguiar, Assis Junior, Maria Barrenechea, Lima Barreto, Evanildo Bechara, gemeu suave e tenso contraindo o quadril na prateleira apertando firmes os glúteos, queria mais, queria Giousé Carducci, José Hipolito Costa, Branquinho da Fonseca, Samuel Gili Y Gaya, Joseph Huber, Ricardo Navas Ruiz, Maria Luiza Lopez, Maria Raquel Delgado Marins, Gustave Kahn, mais rápido, mais rápido, Armando de Lacerda, Rocha Lima, Lucia Maria Pinheiro Lobato, Clarice Lispector, soltou o ar e voltou a prendê-lo, mais rápido, mais rápido, Fontoura Xavier, Fagundes Varela, Visconde de Taunay, José Saramago, Machado de Assis, José Oiticica, Maria Manuela Moreno Oliveira, a musicalidade do nome tonteou a vista já turva pela escuridão, o corpo amoleceu, as pernas tremeram, estava chegando, só mais um pouco, mais rápido, Adriano da Gama Kury, Guerra Junqueira, Ernesto Guerra da Cal, Jean David, o abdômen contraiu empurrou o quadril para frente, os esfíncteres voltaram-se para o interior, e o exterior ia explodir, estava chegando, mais rápido, mais rápido, Carlos Drummond de Andrade, Amadeu Amaral, Robson Di Brito, Ferdinand de Saussure, explodiu. Bum... Bum... Bum!
Explodiu sim, em brancura leitosa na complacência do corpo arrepiado e sensível ao toque, empapando a capa do livro 1536: a primeira gramática publicada, a primeira realização de muitas, que ainda viriam do amante da biblioteca velha empoeirada.

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