quarta-feira, março 02, 2011

O caos de Sandra.

Tinha tudo para ser um dia normal, calmo tranquilo semelhante aos raios de sol que invadiram a janela no raiar do dia, mas não foi! Ela levantou na ignorância da renovação que serpenteava em seu ventre preparando-se para a troca de pele. O sibilar constante do incomodo corporal, aliado ao inchaço da regularidade da vida que contraia o ventre de Sandra e a fez gemer. Não seria sua primeira vez, e esta certeza não aliviava seu desconforto.

O Best of Sade que sempre foi sua companhia em diversos momentos, aqueles do prazer junto ao namorado, do estudo madrugada adentro, da solidão do fim de semana, não trouxe a calmaria para seu corpo com os acordes de Hungry for Love. Pelo contrario extraiu dela uma fúria que só tivera a verdadeira compreensão ao fim do dia; o safanão rapidamente trouxe para o apoio de sua ira a rouca voz da Adriana Calcanhoto, explodindo em seus tímpanos no som rude, ríspido, forte e grave como um arauto para aquele dia, o dia da troca de pele.

Eu não gosto do bom gosto Eu não gosto de bom senso Eu não gosto dos bons modos Não gosto...

Senhas, esta era a sua palavra do dia. A melhor leitura matinal que poderia fazer de si. Uma senha que precisava ser decifrada, decodificada, entendida e dominada. Cantou a todos os pulmões debaixo do chuveiro enquanto a água quente acalmava a cólica. O espelho era seu inimigo, precisava ser estilhaçado por revelar a verdade, expor que o bem maior de sua beleza que é seu interior estava disforme, retorcido, nebuloso e indeciso de quem era. A mesma maquiagem de sempre aderiu sua pele como a pintura rudimentar de uma aborígene preparada para a passagem da infância a fase adulta, ridicularizando-a com o apoio do espelho. Sem o medo da retaliação dos familiares, sem receio de ser taxada como louca pela manhã ou de causar irritação as crianças que estavam a caminho da escola, berrou ao sair com o cantar dos pneus do carro.

Eu gosto dos que tem fome Dos que morrem de vontade Dos que secam de desejo Dos que ardem...

Para ela o mundo era um palavrão, enorme, gritante como ele só: um foda-se! Era um animal farejando os odores da cidade, os cheiros diversos de São Paulo, seus sabores nasais. No trabalho uma fera pronta a destroçar o primeiro a fazer piada, o engraçadinho da maquina de Xerox, ou aquela invejosa que viria trazer-lhe mais irritação só com a presença.

A unha lascou, o botão da camisa arrebentou, o lápis quebrou a ponta, a net caia a todo o momento, queria chorar, berrar, descabelar-se, mas comeu um chocolate ao leite. Surgiu um novo dia em seus caos, e a suavidade do cacau embebedou seus pensamentos trazendo seu homem arrepiando os pelos e a pele. Agora estava quente como se um vulcão abrisse-se em fervente ebulição entre as pernas, pulsando o desejo pelo membro idealizado. Contraiu as coxas, e ligou para o amado. Apenas sussurrou com a rouca voz de fêmea:

Eu aguento até os estetas Eu não julgo competência Eu não ligo pra etiqueta Eu aplaudo rebeldias... Almoça comigo?

Ela esperou dois minutos, ele recebeu o mundo sobre a cabeça com um arremesso certeiro dela. Ela fechou a cara, ele não entendeu porra nenhuma. Pagou a conta como manda a etiqueta masculina e ela reclamou do restaurante que escolheu. No estacionamento a fera havia fugido e a fêmea retornará. Pediu um abraço, um afago. Queria sentir o cheiro do seu homem, derreter-se em seu braço feito o chocolate que estava em seu bolso. Queria o calor repousante entre as pernas do macho, ser ferida e machucada, mordida e saciada, queria ser feita mulher.

Mas ele partiu com raiva.

Sandra se permitiu xingar o motoboy que lhe fechou no cruzamento quando sua pele se desfez, rompendo o caos trazendo o novo, desaguando toda a confusão de tensões que não queria. A natureza se desmanchou em seu colo, mostrando que a vida seguia seu rumo direto e correto no traço certo.

Parou o carro e disse a atendente da farmácia:

- Um O.B, por favor!

3 comentários:

  1. É a vida, quebrando todos os muros, para sobreviver... Filho, filha? Não importa, a vida brota e se renova, quer o mundo ande, quer o planeta pare!

    Valdeck Almeida de Jesus
    Poeta, Escritor e Jornalista
    www.galinhapulando.com

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  2. C'est Dur la Vie d'une Femme. :-P

    Víctor Gonzales
    Spanish Translator and Conference Interpreter
    http://victorgonzales.blogspot.com

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  3. Como pode um homem escrever assim sobre um momento tão mulher?...

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