domingo, abril 03, 2011

Do seu barro se formou sua carne

Nasceu franzinho, mas cabeludo, e com a autorização do Obstetra o pai pousou em sua pequena e frágil mão uma bíblia de capa negra com escrita dourada pesada qual a carga psicológica, que teria de carregar em sua vivencia como mais um novo protestante do século XXI. Nada em sua infância desvirtuou seu reto caminho, até chegar à adolescência: de casa para escola, da escola para igreja e da igreja para casa. Um cruzado no mundo dos homens. Soldado das forças divinas treinado para abster-se de todos os desejos e ideias que o mundo pecaminoso poderia propor a sua carne. Os olhos azuis qual reflexo do céu divino nada distinguia de contrario as cores da gloria, e sua fala mansa colhia os maiores elogios que uma criança cristã poderia sonhar ter, seu andar compassivo diante das estradas da fé eram firmes qual a casa construída na rocha; a virtude havia nascido em forma de homem, infiltrada entres os adoradores do Senhor que a nada perdoava de contrario a suas leis, de injuria, inglória ou adoração a outra forma de fé, em especial, aos do diabo na macumba.

O medo, o desejo de fazê-los desaparecer da terra, de destruir as imagens de barro, de surrar os dançadores e tocadores de tambor do demo, de engolir suas cabeças e cuspi-los no abismo entregue as hostesses do inimigo dos homens de Deus. Este era o pequeno evangélico passando em frente à casa de umbanda. Na primeira vez chorou de dó, piedade aos tolos homens, virando o rosto para não enxergar as imagens de olhos vivos o encarando. Na segunda vez pediu a morte para todos que adentrassem naquele antro, e encarou com ódio o rapaz sentado do outro lado do balcão. Na terceira vez estava fechada a loja, aproveitou a oportunidade que o senhor lhe concedeu, e pousou firmes as mãos cheias de poder do espírito santo no alumínio enferrujado e repreendeu quase aos berros sem preocupar-se com os olhares sarcásticos dos passantes a sua obra divina.

Nosso santo entrou na puberdade conforme humana evolução da carne, e o inimigo envolvente qual antiga serpente domou seus sonhos fazendo-o silenciosamente inundar seus lençóis durante a divina noite. Mais três vezes passou em frente a loja, porem algo mudara nele: a barba já estava rala, a pele mais grossa, os arrepios eram mais constantes, e a indignação diante das santidades pagãs deu lugar a curiosidade.

Sétima e última vez que passou em frente a loja, seguiu. Mas retornou, parou encarando o rapaz do outro lado do balcão. Os suaves passos seguiram rumo ao desconhecido, inundando seu ser de algo novo, de arrepios novos, de desejos não imaginados, era o crente na casa do pecado. O rapaz do balcão fingiu que não o viu, e ele permaneceu imóvel no centro da loja admirando de baixo a galeria de imagens que tanto recriminou, como um servo humilhando-se em desculpas ao seu senhor. Sétima vez. O espírito sétimo o puxou pelo gogó da alma para os sentidos da carne, em uma luz humana comum a previa do prazer, do seu barro se formou sua carne.

As penas tremeram. Os olhos esbugalhados fixam-se mais nos deuses coloridos que dançavam diante de si. O corpo reagiu gostoso no enrijecer grande e grosso, torneado de veias firmes, levando e trazendo, trazendo e levando o sangue na oxigenação do desejo, que se revela na inundação da cueca em puro pedaço de nuvem, que o crente doa virando os azuis celestes olhos para o submundo dos deuses.

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