domingo, abril 24, 2011

Jonas e Jesus

Jonas como o engolido pela baleia era incapaz de compreender a moralidade que lhe faltava. Assim seguindo seus dias em certa manhã, uma precisa segunda-feira de um mês qualquer, fim de um mês passado onde o fechamento de folha de pagamento do RH da empresa em que era o diretor deixava em intensa tensão todos os funcionários do coração da empresa. Saiu de casa levando a tira colo uma calça social a mais, do mesmo modelo da que cobria seu corpo. Era preciso, necessário para que no fim do dia, pudesse voltar para o aconchego do seu lar, no horário da janta com a família, sem passar pelo constrangimento de enxergaram que algo lhe aconteceu. Ritual que fazia uso quando executava seu poder de diretor, e ditar o fim da existência de um funcionário.

Tal como a incerteza do brilho do sol em um dia chuvoso na cidade de São Paulo, partiu o incerto Jesus rumo ao seu local de trabalho. Não havia como ter a noção que aquele dia sua vida na empresa estava com horas contadas, afinal era um dos três funcionários que poderiam sair da folha de pagamento e partir para o planejamento, onde o salário era maior, o período de trabalho era menor e as responsabilidades não impregnariam em seus corpos as tensões causadoras dos males que suas saúdes tanto temiam.

Trabalhou Jesus com o incansável olhar de Jonas sobre si: relatórios, ligações, papéis, digitações, folhas de ponto, envio de holerites e todo o mais executado, preparado para no dia próximo concluir a folha de pagamento e calcular as demissões do mês. Almoço como de costume, recheado das falsidades ao molho especial dos amigos de trabalho que já sabiam que não continuaria no departamento. Faltavam trinta minutos para as dezoito, horário de pegar o trem lotado e três ônibus para chegar a sua casa no jardim Ângela.

Seu nome soou alto e repreensivo no departamento, saído das profundezas da sala do Senhor Jonas. Entrou, sentou, acreditou que teria de dar alguma explicação sobre o fechamento da folha, mas não. Jonas iniciou seu discurso com a já batida desculpa de corte de custo, permeando sua fala com a aspereza do cargo que ocupava, caindo no cacoete que infelizmente, ele, o Jesus não poderia corresponder às novas diretrizes da empresa. Parou em meio ao acido discurso e colheu com prazer as lagrimas do homem, a dor que transpassava em seus poros, no desespero que impregnava sua mão na involuntária movimentação de aperta-se a si mesma. Pediu, clamou, expôs de forma incerta sua existência na periferia. Neste auge de humilhação, Jonas fechou os olhos, arrebatando-se com as palavras de Jesus, como se fossem o suave toque da mais suculenta mulher, e no compassado soluçar do homem a mendigar o emprego, molhou a calça social com o que de mais prazeroso continha em sua baleeira imoralidade.

Jesus partiu desconsolado e desolado, no contrario Jonas trocou a calça, lavou as mãos, e seguiu sorrindo para sua casa na Vila Olímpia em seu confortável Cross Fox, cansado por mais um dia de trabalho.

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