segunda-feira, janeiro 02, 2012

As lembranças de Nicolau

Na cabeça do velho Nicolau, as lembranças cutucavam, perturbando a calmaria que as drogas tinham de lhe proporcionar. Vinham pesadas apertando ainda mais o peito sofrido, empurrando a carne em uma pressão invisível. Chegavam fracas, feito o ar que a todo custo buscava invadir os pulmões, conquistado pelo câncer. E se dissolviam por todo o corpo, trazendo do passado os sentidos que se tornavam presentes. Lembranças sempre remoídas, mas naquela noite foram lembranças mais vividas. Era o insuportável e o aceitável juntos, pulsando no cadenciado ritmo, no mecânico dos aparelhos que mantinham o homem vivo.

A enfermeira voltou. Afofou o cobertor nas laterais da cama sem tocar em seu corpo. O olhou sem enxergar. Mais uma análise dentre tantas daquela noite. A primeira volta do seu turno. Mais um corpo a espera do óbito? – uma dúvida. Em uma subjetiva crueldade, buscando a certeza, agrediu com os lábios as lembranças do velho decaído:

– Sabe que é noite de Natal?

Os olhos abriram fracos, mas a penumbra no olhar manteve e um, agora eu sei, saiu quase que inaudível.

Agora elas vinham em noites natalinas, e Alice as acompanhava. Ainda mantinham a densidade lamacenta do reviver. Surgiu de um dente na mão da menina, arrancado por uma uva passa do panetone. Era suave o seu choro, na pequenina mão o branco do leitoso dente, e ela envolta por uma nevoa negra que era ele. Balançou a cabeça procurando outros personagens da cena, mas nada encontrou. Veio Alice de boneca, sorrindo frouxa, pulando solta, saltitando na busca de colo, mas o álcool a jogou no sofá de couro. As garrafadas de lembranças vieram aos gritos, aos pedidos de pare, as súplicas de um afeto abnegado.

O ar não conseguiu invadir, o homem lutou, mas suas armas eram fracas e o corpo se contorceu empurrando com mais força os pulmões para as laterais. Luta silenciosa, e dois enfermeiros vieram em seu socorro. A tranquilidade mórbida do quarto 350 da UTI do Hospital das Clínicas na luminosa cidade de São Paulo voltou depois de uma pausa brusca.

Alice também voltou, estava maior, bonita, com cores enfeitando seu corpo. Junto dela um menino: o primeiro namorado, o primeiro amor, o primeiro e único a ser apresentado ao pai. Novamente a lembrança turvou, ficou apenas o rosto do garoto grudado em sua mão. Ele não queria, mas o rosto do menino queria sua mão. Alice xingava, prometia vingança, apresentava a força da adolescência, e a cara do garoto na palma da sua mão. O rosto do garoto sumiu, ficou apenas um enfeite de natal quebrado entre os dedos:

– Você esta bem pai?

As lágrimas vieram fortes. O silêncio chegou triunfante como uma luz que invade as trevas. A voz embargou, a respiração fluiu pesada, e o coração mostrou vida ao disparar: – Filha?

– Você esta bem Senhor Nicolau? Sou eu Thais, a enfermeira, o Senhor se lembra?

O, estou e sim, saíram roucos e custosos. Surgiu novamente adulta, no natal do casamento. Estava ela sorrindo para todos e trancada para ele. Ela andava, ele andava, ela andava, ele parou, desta vez a lembrança veio em holofotes. Ele se viu lá, abandonando a filha no altar, jogando o seu momento no egoísmo de marrom sem sentido. Ela era branca e lágrima, amargura e vergonha. Ele presunção e um abandono paterno ao caminho do altar.

A porta anunciou a entrada e uma mão alisou seu peito que subia sem ritmo:

– Pai?

Ele não se deixou ser enganado por sua mente:

– Já sei que é Natal. A luz não vai vir para mim, só as lembranças que sempre estão aqui. Eu não quero mais abrir os olhos, não quero o reflexo do meu rosto no enfeite de natal. Queria apenas o brilho do seu sorriso de novo Alice. Só deixe que eu fale. Deixa eu soltar essa coisa que me machuca mais que esse bicho dentro de mim. Deixa eu pensar que esta mão é a mão do perdão. Deixa eu esquecer que fui pior que o câncer para a minha menina de olhos negros. Deixa eu me enganar... O ar vacilou, mas ele continuou. Deixa-me me sentir quando você nasceu, me deixa me arrepender...

Silêncio.

– Quando sua mãe se foi, ficamos sós. Eu não queria só nós. Deixa eu jogar seu dente no telhado. Quer mais panetone com sorvete? Tá frio, mas eu deixo. O que você quer nesse natal? Quero que o tempo ande para trás. Quero as lembranças diferentes...

O celular tocou seco enchendo o quarto:

– Mãe, onde você tá?

– Estou com seu avô!

– Há tá, então tá bom! Não demora que a gente quer abrir os presentes, o papai já tá bravo, trás mais refrigerante que o idiota do seu filho tomou tudo, depois não sabe por que mija na cama. Para com isso que eu que liguei pra mamãe, larga seu boboca, mijão. Mãe fala pra ela parar de me xingar, mãe, eu vou bater nele, mãe...

O celular foi desligado.

– Continua pai, continua!

Nicolau não respondeu. O ar também parou de invadir os brônquios pulmonares, o corpo parou de lutar. A mecânica que o nutria ressoou um aviso, e desistiu de manter o homem vivo.

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