quarta-feira, julho 29, 2015

DISCURSO - Minhas mulheres e a água.


Discurso para o lançamento de “A voz de Tina” 
Festival Inverno Cultural em São João Del Rei.

Minhas mulheres e a água.

A água é como o sonho. Ambos não possuem fronteiras, mas podem ser represados – Limitados. Nada mais insalubre do que um sonho não realizado ou uma água não límpida – limitações humanas tão presentes quanto à necessidade da água diária. E as limitações foram um dos meus primeiros professores. Antes de firmar as pernas e ganhar a confiança de caminhar só, tive de compreender a importância da água em minha vida. Primeiro na infante fase amniótica e depois o banho na banheira. E das águas vi emergir minha fé. Surgida dos mitos, contos e cantares despregados por minha mãe. Então a deusa das águas povoou minha infância, e me permitiu brincar sem medo em rios, cachoeiras e mar.
Nem sempre o medo me veio da terra seca, mas das águas bravias do rompante. A conhecida transparência que me saciava a sede ou me refrescava a pele personificava-se na figura materna e me corrigia os modos. Vez por outra, era a avó que me varria a tranquilidade da epiderme com o chicotear da espada de São Jorge por ter quebrado a vidraça.
E não muito distante do hoje, no encantamento da adolescência a água surgiu como sereia. Envolvendo-me em saliva e líquidos nunca provados, que me encantou o sexo e me fez homem.
Há um antigo engano de que estou seguro neste ambiente, que conheço e me reconheço. Na água que nunca seca. Na deusa que nunca me abandona. Na mulher que sempre me dará a vida. Assim a água foi a que mais me fez aprender. Minha mãe se foi. Minha avó também se foi. E minha cidade foi assolada pela seca. A velha São Paulo que nunca para; parou por falta d’água. Só Oxum permaneceu!
Pude perceber no desenvolver do meu intelecto, na força da fé, que a água fenece, mas não desaparece. Como desapareceu a vida de Clementina de Jesus. Mas sua voz... Essa flui como vapores permitindo que o cantar negro calado, ainda ganhe som. Como um sonar que mesmo distante de seu epicentro ainda ecoa vibrando em ondas infinitas. Como as longas camadas energéticas de Oxum que ecoam no universo permitindo que o amor reine mesmo na catastrófica seca.
Quando menino. Ouvindo o cantar do Ijexá por minha mãe; cria que se a água acabasse acabaria também a deusa Oxum. Um limitador entendimento da mimesis aristotélica ocidental. Que não compreende que os orixás não residem na natureza, mas é a natureza uma extensão da grandiosidade que são eles. Assim como nós somos também uma diminuta ponta desta extensão, e nossos falares, cantares e artes são aproximações deste poder.

Clementina estendeu sua limitação de ser carne, como a água que limitamos ser o reino e a representação de Oxum. Entretanto lançando sua voz ao infinito toca no finito que reside em nós, à seiva a qual corre oxum. Nosso sangue, no amor, nossa vida, na fé. 

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