segunda-feira, novembro 09, 2015

DISCURSO - Uma força de guerra


Discurso proferido no encerramento do CONGEafro, promovido pela UFPI.
II Congresso sobre Gênero, Educação e Afrodescendência – roda de GRIÔ.



Existem em nós brasileiros, poços de medos. Que se abrem em paralelos como um abismo profundo e nos impede de ver a verdade. Mas raramente surgem de dentro deles, vozes. Ferozes vozes, que ecoam como um grito guerreiro. Como o sonoro, firme e dominador Ilá de um orixá em guerra. Como o berro de um pajé em luta. É o sonar da igualdade. É o ecoar da cor tinindo no espaço. Como uma gigantesca bolha pronta a explodir. Esses medos são as corres: Terracota e Preta. Que se espalharam pela terra de Vera Cruz, tingindo com graça e nova raça homens e mulheres. Moldando corpos ao quente de seu rebolado.

A força de seu sangue NEGRO, da sua seiva de vida ÍNDIO. Produziram o que de mais belo a terra viu. A miscigenação. E esfregou na cara do ódio imposto, o quanto são fortes e resistentes. Mas agora chegou o tempo. O tempo de destruir com o laço do preconceito, que não nos pertence. Todos os matizes de cores humanas estão na eterna roda da vida.  Somos uma única família. Uma única aldeia. Somos a globalização. Somos brasileiros.

Não deixemos que o passado opressor e desigual permaneça lambuzando de sujeita corrupta a nossa força.

Levantem-se mulheres. A terra foi criada por um ventre. Olocum – ayabá suprema das águas. Sem ela nada se faria. Fomos paridos e não surgidos do vazio de um buraco negro. Fomos feitos pelo mais suave toque, o mais firme envolver. Fomos feitos pela água do útero. E não há nada mais poderoso do que deter o poder de compartilhar. Sangue e carne. Esse poder é exclusivamente de vocês mulheres.

Sou grato, por em algum momento alguém pensou na Lei 10.639. Sou mais grato porque alguém idealizou ver negros, índios e mestiços dentro da Universidade. E é graças a estas pessoas, que encararam a horrenda sombra do passado, que estou aqui. Mas, não se enganem. Não é fácil! As amarras opressoras estão sentadas confortavelmente sobre as cadeiras acadêmicas. Impedindo com uma mão de palmatória silenciosa. Escolhendo, pontualmente, o que deve ou não ser dito. O que precisa ou não ser aprofundado pelas ideias. E quase sempre não corroboram ao pensar a negritude.

Mas eis que surgimos. Em momentos como este, para levantar nossas vozes do fundo da razão. Misturando ciência e gente na construção do pensar. Parabéns aos organizadores do evento. Sinto-me mais do que honrado, me sinto agraciado e tocado pelas fortes e potentes mãos de um orixá.
Obrigado Congeafro. 

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